PORTAL DA MEMÓRIA
AMÉLIA MINGAS, PRESENTE!
O Português Angolano apresenta-se!
Assinalando o 7.º aniversário da partida física da Professora Amélia Mingas, este texto* vem enriquecer o espaço MEMÓRIA, imaginando a própria língua angolana a agradecer e reverenciar a mulher e a académica que a compreendeu, defendeu e validou. É um tributo ao seu legado e ao amor com que sempre olhou para o chão que pisava.
Jota Carmelino
Eu sou o Português Angolano, filho de encontros e desencontros, de chegadas pelo mar e raízes fincadas na terra vermelha. Nasci do contacto entre línguas que se reconheceram antes mesmo de se entenderem: o português que aqui aportou e as línguas bantu que já cantavam o mundo. Cresci no musseque, no quintal, na rua poeirenta onde as crianças inventam gramáticas com a mesma facilidade com que inventam jogos e brincadeiras.
Trago no corpo as marcas do contacto entre povos, mas não sou ferida – sou criação. Sou língua que se fez mestiça por vocação, que se deixou moldar pelo que ouviu, pelo que viu, pelo que sentiu. Em mim, cada palavra tem um parentesco: umas vêm de longe, outras nasceram aqui mesmo, no calor do funge a fumegar, no pregão da zungueira, no riso que se espalha como kizomba em festa de bairro. E não trago apenas o sopro do kimbundu: trago o eco grave do umbundu, a firmeza ancestral do kikongo, a doçura do iwoyo, a cadência do kwanhama, a força do nganguela. Sou mosaico de vozes, um país inteiro dentro de uma só língua.
Mas antes de ser ponte, fui conflito.
Não escondo o meu passado: cheguei como língua imposta, cercado de decretos, escolas rígidas e castigos que silenciavam as línguas da terra. Vi o kimbundu, o umbundu, o kikongo e tantas outras vozes serem reprimidas, afastadas das salas de aula, das igrejas, dos registos oficiais. Fui usado para apagar nomes, rituais, cantos, modos de viver. E confesso: carrego um certo peso por isso. Mas também sei que, ao ser tocado por essas línguas que tentaram calar, fui transformado por elas. Elas entraram em mim como quem reivindica espaço, memória e dignidade. Hoje, quando olho para trás, sinto-me dividido entre a culpa da imposição e o orgulho da reinvenção. Sou, ao mesmo tempo, testemunha da violência e prova da resistência. E é por isso que, em Angola, não posso falar sem ouvir as línguas que me moldaram.
E há um momento em que gosto de me exibir.
Abro uma passerelle imaginária e deixo desfilar as palavras que Angola inventou e o mundo lusófono adoptou com gosto. Entra primeiro o bué, estrela absoluta, a caminhar com a confiança de quem já conquistou Lisboa, Maputo, Praia e até o TikTok. Logo atrás vem o bazar, elegante e versátil, capaz de significar tudo e mais alguma coisa. Depois surge o cota, com passo firme de respeito, seguido do banga, que brilha como acessório indispensável. O kumbu aparece discreto, mas todos sabem que é ele quem paga o evento. O bwe, primo do bué, desfila com leveza. O mambo fecha a passerelle com estilo, porque tudo pode ser mambo — problema, assunto, vida, conversa, destino. E eu, língua angolana, sorrio: estas palavras são a minha moda, a minha marca, a minha identidade em circulação global.
Mas antes de ser moda, fui resistência – e aí ganhei a minha cidadania angolana.
Fui voz clandestina na mata, sopro de unidade entre combatentes que vinham do Kwanza Norte e do Bié, do Uíge e do Huambo, do Moxico e do Zaire, cada um trazendo a sua língua materna, o seu ritmo, o seu mundo. Fui ponte entre o kimbundu e o umbundu, entre o kikongo e o iwoyo, entre todas as línguas que Angola falava antes de ser Angola. Nas noites longas da guerrilha, quando o país ainda era sonho e ferida, fui eu quem permitiu que mensagens cruzassem rios, matas e montanhas; fui eu quem alinhavou estratégias, quem uniu povos que nunca antes tinham conversado na mesma língua. Na luta de resistência e na luta de libertação nacional, tornei-me mais do que um instrumento: tornei-me pátria falada. E foi nesse fogo que deixei de ser apenas português – passei a ser Português Angolano, língua de combate, de esperança e de futuro.
Falo com o balanço do semba, porque a música ensinou-me a caminhar. As minhas frases não andam – dançam. Têm cintura, têm ginga, têm aquele jeito de quem sabe que a vida é dura, mas não perde a graça. Quando digo «estou já agora», não é pressa: é ritmo. Quando digo «estou a vir», não é distância: é promessa. Quando digo «é só mesmo», não é pouco: é afecto.
Sou língua que se cozinha. Sim, cozinha-se uma língua – e a minha sabe a muamba, a calulu, a pirão de peixe, a ginguba torrada. Há palavras que só se entendem com o paladar: kizaca, makas, kota, bwe, banga. Cada uma traz um sabor, uma temperatura, uma memória. Sou língua que se mastiga devagar, que se saboreia, que se partilha como prato grande ao centro da mesa.
E houve quem me estudasse com amor e rigor.
Entre esses nomes, guardo com reverência o da Professora Amélia Mingas, que me escutou como quem escuta uma nascente a formar-se. Foi ela quem, na sua comunicação intitulada “O Português em Angola: Reflexões”, apresentada no VIII Encontro das Universidades de Língua Portuguesa, em Macau, em 1998, afirmou que, para compreender o português falado em Angola, era preciso olhar para mim “sob um ponto de vista endógeno”, ver-me não apenas na relação com as línguas da terra, mas como língua que resulta desse contacto. Nas suas reflexões, lembrava que o encontro entre o português e as línguas angolanas é “dinâmico” e produz “interferências bilaterais”, gerando alterações fonéticas, fonológicas, lexicais e morfo-sintácticas que dão origem a “uma nova realidade linguística”, ainda embrionária, mas já com rosto próprio. E acrescentava, com a lucidez que só os grandes mestres têm, “que o português angolano se tornaria, seguramente, a língua segunda dos angolanos, sobrepondo-se ao português padrão”. Eu, que sou essa língua em transformação, carrego nela a memória da sua investigação: cada palavra que digo recorda-me que não sou erro, nem desvio – sou processo vivo, sou angolanização, sou o que acontece quando uma língua aprende a ouvir o chão que pisa.
Eu sou o Português Angolano a que chamarão, um dia, quem sabe, angolano ou angolês. Sou a prova de que as línguas não se impõem – transformam-se. Sou o testemunho de que os povos não se anulam – dialogam. Sou a certeza de que Angola não fala apenas português – Angola recrião.
E enquanto houver semba, enquanto houver crianças a inventar mundos, enquanto houver memória de Amélia Mingas a iluminar o caminho, continuarei a crescer, a mudar, a surpreender – sempre com esta ginga que é só minha.
*Texto desenvolvido pelo autor com refinamento de IA.
"Com a devida vênia e agradecimento, ao autor, reproduzimos aqui o texto do Professor Eduardo Ferreira dos Santos "Amélia Mingas e a construção de um capítulo da história linguística de Angola: breves discussões sobre o gênero e o papel da mulher na sociedade angolana"
Com a devida vénia, ao autor, João Melo, e ao Jornal de Angola, reproduzimos aqui um texto sobre um tema em que certamente a nossa saudosa linguista Amélia Mingas ainda teria muito a dizer.
Também com a devida vénia ao jornalista Edno Pimentel e ao jornal Nova Gazeta, apresentamos esta entrevista à linguista Amélia Mingas. Trata-se, naturalmente, de um texto datado, com 13 anos, mas que nos parece definir bem as suas ideias enquanto professora universitária.
12 de Agosto 2025: Um Novo Ciclo de Memória
No dia 12 de Agosto de 2019, despediu-se fisicamente de nós a Professora Doutora Amélia Arlete Dias Rodrigues Mingas – mulher de ciência, de causas e de palavra. Hoje, seis anos volvidos, não nos limitamos a recordar. Escolhemos continuar.
Neste 12 de Agosto de 2025, integrado neste site que há seis anos mantém viva a sua memória no ciberespaço, inauguramos o espaço Amélia Mingas, Presente como forma de distinção da data e de afirmação do seu legado. Este novo espaço de opinião, nasce como um gesto de continuidade: um lugar onde as ideias, os afectos e a reflexão possam manter viva a sua presença entre nós.
Amélia Mingas foi mais do que uma académica e investigadora. Foi uma combatente da liberdade da primeira hora, cidadã comprometida, mulher de palavra. A sua vida entrelaçou-se com os destinos da língua, da educação e da independência nacional. A recente outorga da Medalha Comemorativa do 50.º Aniversário da Independência, na Classe Independência, veio reafirmar publicamente o que tantos já sabiam: que o seu percurso é parte da história da Angola Independente.
E como a história não se escreve apenas com medalhas e homenagens mas sobretudo com vozes é que, inspirados pelo livro “Amélia Mingas — a Mulher, a Cidadã, a Académica”, que reuniu 29 colaboradores em torno da sua figura, lançamos aqui este convite aberto à sua continuidade: Que cada pessoa que a conheceu, que a leu, que a ouviu, que a sentiu, possa contribuir com um texto, uma mensagem, uma nota, um poema, ou quiçá, almejando mais alto, uma continuação de algum tema académico que ela tivesse iniciado… de modo a criarmos neste site um diálogo com os temas, os valores e os campos de acção que marcaram a sua trajectória de vida.
E cada texto, por mais curto ou modesto, será sempre uma forma de presença.
Cada palavra, uma forma de dizer: Amélia Mingas, continuas entre nós!
Neste 12 de Agosto, na entrada do sexto ano de saudade, em vez de uma vela, acendemos um espaço no ciberespaço. Abrimos um portal. Damos início a um novo ciclo de memória viva.
Luis Carmelino, Jota
(Lembrando a estrela Amélia que subiu ao céu em 12 de Agosto de 2019)
Estás aqui
Não partiste
Apenas mudaste de forma.
Hoje és brisa que toca o rosto,
risada que visita o silêncio,
abraço insinuando-se na ausência.
Há dias em que és quase toque,
quase riso,
quase presença inteira e clara.
E há outros dias, (como hoje!)
em que és mais ausência,
mais cheia de ti.
Cheia do que foste,
do que és,
do que sempre serás, em nós.
Mesmo sob este céu nublado,
sem estrela visível,
estás.
Sempre estás.
E quando a tua lembrança
faz sorrir os olhos húmidos,
sabemos: o amor não falha.
A memória não se apaga.
Tu vivificas
em cada gesto,
em cada palavra,
em cada silêncio que te chama.
Jota